Segundo reportagem do Globo citada pelo Brasil 247, documentos analisados pela PF indicam acesso bancário relevante. O senador nega relação financeira ou societária com a empresa.
Uma referência bancária colocou as relações de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o advogado Willer Tomaz sob novo escrutínio. Segundo reportagem de Malu Gaspar, publicada pelo jornal O Globo e repercutida pelo Brasil 247, documentos analisados pela Polícia Federal identificam o senador como “usuário master” de uma conta da offshore Alcazar Holdings.
Sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, a empresa detinha um terço da sociedade proprietária de um jato utilizado por Flávio e ligado indiretamente ao empresário Daniel Vorcaro.
O ponto central é o significado desse registro. Segundo a reportagem, a PF considera que ele indica acesso operacional relevante e sustenta uma hipótese de participação econômica ou societária. Essa hipótese, porém, não está comprovada. Flávio e Tomaz negam negócios conjuntos e afirmam manter apenas uma relação de amizade.
O que os e-mails indicam sobre a conta
A referência foi encontrada em mensagens entre o Santander e Fayla Menezes, secretária de Willer Tomaz. Segundo o relato publicado, os e-mails foram obtidos pela PF a partir de dados armazenados no iCloud do advogado.
Em 22 de maio de 2025, Fayla pediu a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar Holdings e a desvinculação de duas contas, uma delas identificada com o nome de Flávio Bolsonaro.
O banco respondeu que as contas mencionadas haviam sido excluídas do contrato.
Na interpretação dos investigadores, a condição de “usuário master” conferia “nível elevado de acesso e gerenciamento”. A documentação, portanto, justificaria apurar a natureza da associação do senador à estrutura bancária.
A defesa apresenta outra leitura: afirma que a solicitação de desvinculação mostra uma associação indevida, posteriormente corrigida. O material descrito não estabelece, por si só, que Flávio fosse proprietário da conta ou sócio da offshore.
Como o jato entra nessa história
A Alcazar Holdings possuía um terço da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa proprietária de um Embraer Legacy 650.
As demais participações pertenciam, naquele período, ao empresário Laerte Cosentino, fundador da Totvs, e à Prime You, que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios.
Em janeiro de 2025, Flávio viajou na aeronave de Brasília a Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, acompanhado por Tomaz. A viagem havia sido revelada pela revista piauí.
Na ocasião, o senador disse que participou a convite do advogado. Tomaz afirmou desconhecer tanto a participação da Prime You na propriedade do avião quanto sua ligação com Vorcaro.
Para a PF, segundo a reportagem, um eventual vínculo com a Alcazar poderia ajudar a compreender as relações indiretas com a empresa proprietária da aeronave.
A estrutura societária do jato não comprova vínculo financeiro direto entre Flávio e Vorcaro. Essa distinção é necessária para avaliar o alcance dos documentos.
Viagens e mensagens também aparecem na apuração
O material relatado pela reportagem inclui outros episódios envolvendo o senador, seus familiares e Tomaz.
Em março de 2025, o grupo participou de um safári na África do Sul, que também contou com a presença do senador Weverton Rocha (PDT-MA), conforme informações anteriormente divulgadas pelo Globo.
Documentos examinados pela PF indicariam ainda que a Cathedral Holding, outra empresa ligada ao advogado, teria intermediado a compra de passagens para Flávio e familiares. O relatório trabalha com a possibilidade de a empresa ter sido utilizada para “custear ou operacionalizar deslocamentos de caráter pessoal”.
Tomaz afirma que as viagens ocorreram entre famílias amigas e que os convidados não ofereceram pagamento ou contrapartida.
A reportagem também menciona registros de comunicação entre Flávio e o advogado pelo Confide, aplicativo com criptografia e mensagens que se autodestroem. O uso dessa ferramenta, isoladamente, não demonstra irregularidade.
O que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz dizem
A assessoria de Flávio contestou a interpretação dos documentos. O senador afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Sua defesa sustenta que os e-mails registram a correção de uma vinculação indevida, não a existência de uma relação financeira.
Tomaz também rejeitou a hipótese levantada pelos investigadores. “Extrair desse documento uma ‘eventual participação econômica ou societária’ é ilação”, declarou.
O advogado afirmou que os dados foram divulgados por meio de um vazamento que considera criminoso. Flávio, por sua vez, criticou a publicação durante a campanha presidencial e ameaçou adotar medidas judiciais contra eventuais notícias falsas.
O caso deixa uma questão a esclarecer: por que o nome do senador aparecia naquela estrutura bancária e qual era o alcance efetivo dessa associação?
Responder a isso exige distinguir o registro documental, a interpretação da PF e a explicação da defesa. As informações descritas levantam questionamentos, mas não autorizam concluir que houve sociedade oculta ou irregularidade comprovada.
O que você precisa saber?
- Segundo a reportagem, a PF identificou referência a Flávio como “usuário master” em conta da Alcazar Holdings.
- A offshore detinha um terço da empresa proprietária do jato utilizado pelo senador.
- Os investigadores consideram a possibilidade de vínculo econômico ou societário, ainda não comprovado.
- Flávio e Willer Tomaz negam negócios conjuntos e dizem que a associação bancária era indevida.
- A ligação indireta da aeronave com Vorcaro não comprova relação financeira direta com o senador.
Fonte editorial: texto fornecido, atribuído ao Brasil 247, com informações de reportagem de Malu Gaspar, do jornal O Globo, e referência a apuração anterior da revista piauí.