Tratado cria mercado de mais de 700 milhões de consumidores e enfrenta resistência política interna no bloco europeu.
A UE aprova acordo União Europeia Mercosul e dá um passo decisivo para a consolidação do maior tratado de livre comércio em escala global. A decisão foi tomada nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, após autorização dos representantes permanentes dos países-membros da União Europeia.
O acordo estabelece um mercado integrado estimado em mais de 720 milhões de consumidores. Além disso, prevê a redução expressiva de tarifas e barreiras comerciais entre os países do Mercosul e o bloco europeu, após mais de duas décadas de negociações.
UE aprova acordo União Europeia Mercosul após etapa decisiva
Com a autorização política, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recebeu aval para assinar formalmente o tratado. A cerimônia está prevista para ocorrer na próxima semana, durante encontro oficial no Paraguai.
Antes disso, os governos dos 27 países da União Europeia ainda precisam confirmar seus votos. Entretanto, essa fase é tratada como procedimento protocolar, sem expectativa de reversão do resultado já aprovado no Conselho.
Posicionamentos oficiais reforçam peso estratégico do tratado
Após a decisão, governos europeus passaram a se manifestar publicamente. A Alemanha destacou que o acordo representa um sinal relevante diante do atual cenário internacional, marcado por disputas comerciais e instabilidade geopolítica.
Além disso, o entendimento é visto como um movimento estratégico para ampliar mercados, reduzir dependências externas e fortalecer cadeias produtivas europeias e sul-americanas em um ambiente global mais fragmentado.
Impactos econômicos previstos no acordo UE-Mercosul
O texto do tratado estabelece a eliminação de tarifas de importação sobre aproximadamente 91% dos produtos comercializados entre os dois blocos. A expectativa da Comissão Europeia é de crescimento significativo das exportações do continente europeu para a América do Sul.
Estimativas indicam, portanto, que as vendas externas da União Europeia podem crescer até 39%. Esse avanço pode gerar cerca de 440 mil empregos no bloco, especialmente em setores industriais e de bens de alto valor agregado.
Histórico das negociações e retomada recente
As negociações entre União Europeia e Mercosul tiveram início em 1999. Desde então, o processo enfrentou longos períodos de paralisação, motivados por divergências ambientais, agrícolas e políticas.
O acordo voltou a avançar no fim de 2024. Esse movimento ocorreu após articulação diplomática do governo brasileiro, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo interesse de países europeus com perfil exportador, como Alemanha e Espanha.
Contexto geopolítico influencia avanço do tratado
A UE aprova acordo União Europeia Mercosul em um momento de reconfiguração do comércio global. Medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos, especialmente durante a retomada da agenda de Donald Trump, reforçaram a busca europeia por novos parceiros estratégicos.
Além disso, episódios recentes envolvendo a Venezuela e tensões diplomáticas relacionadas à Groenlândia ampliaram o debate interno sobre autonomia estratégica e segurança econômica no continente europeu.
Resistência política e protestos na França
Apesar da aprovação, o tratado enfrenta resistência em alguns países, com destaque para a França. Agricultores franceses realizaram novos protestos em Paris, utilizando tratores para pressionar o governo contra o acordo.
O tema intensificou a crise política interna e passou a ser explorado por partidos de oposição. O objetivo é fragilizar o governo do primeiro-ministro Sébastian Lecornu e ampliar a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron.
Derrota francesa no Conselho e mudança de posição da Itália
Nos bastidores, a França tentou formar uma minoria de bloqueio no Conselho da União Europeia. Contudo, não alcançou o critério necessário, que exige apoio de ao menos quatro países que representem 35% da população do bloco.
A mudança de posição da Itália foi decisiva. O governo italiano recuou após negociar concessões com a Comissão Europeia, incluindo subsídios agrícolas antecipados e ajustes na aplicação da taxa de carbono sobre fertilizantes importados.
Próximos passos e disputa no Parlamento Europeu
Com a derrota no Conselho, o governo francês deve concentrar esforços no Parlamento Europeu. A casa legislativa precisa ratificar o texto final até abril para que o acordo entre em vigor.
Paralelamente, eurodeputados avaliam levar o tratado ao Tribunal de Justiça da União Europeia. Caso isso ocorra, a implementação poderá sofrer atrasos significativos, mesmo após a aprovação política.
Fluxo comercial entre UE e Mercosul
Em 2024, o comércio entre União Europeia e Mercosul movimentou cerca de € 111 bilhões. A pauta europeia é liderada por máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte.
Já as exportações do Mercosul concentram-se em produtos agrícolas, minerais, celulose e papel. Esses setores estão no centro das controvérsias políticas, sobretudo em países com forte produção rural, como a França.
Dessa forma, a decisão pela aprovação do tratado marca uma virada histórica nas relações comerciais entre os dois blocos e inaugura uma nova etapa de disputas políticas, econômicas e institucionais dentro da própria União Europeia.