Nos bastidores da política de Simões Filho, onde as conversas parecem ganhar vida própria e se espalham pelas calçadas como vento de final de tarde, cresce — de forma lenta, porém perceptível — a sensação de que a cidade assiste ao início de um capítulo de tensão entre poderes legislativo e executivo.
Uma provável reeleição do presidente da Câmara, vereador Itus Ramos, tornou-se o centro dessa novela política. Não por algum movimento explícito, mas justamente pela ausência de anúncios, pela leitura das entrelinhas e pelos rumores que circulam com a velocidade de sempre: mais rápidos do que confirmações oficiais e mais resistentes do que desmentidos formais.
O início de tudo: uma vitória que mexeu na engrenagem
A eleição de Itus para o comando da Câmara no primeiro biênio não foi exatamente o cenário que o então recém-eleito prefeito Del do Cristo Rei desejava. Para Del, o nome ideal para assumir o posto era o do atual líder de governo, vereador Belo Gazineu. Já para o ex-prefeito Dinha, segundo relatos que circulam na cidade, a vitória de Itus teria sido o desfecho perfeito.
Fontes ouvidas pelo Tudo é Política afirmam que, após não conseguir eleger Belo naquele momento, Del teria sinalizado ao vereador que no próximo biênio seria dele o comando — um compromisso político que agora é colocado à prova pelo novo rearranjo de forças que se desenha.
Mas, como se sabe, a política raramente respeita acordos não escritos.
O rumor mais barulhento da cidade
Nos últimos dias, ganhou força a narrativa — ainda não confirmada — de que 11 dos 17 vereadores estariam inclinados a apoiar um novo mandato de Itus na presidência, movimento que, se concretizado, representaria uma derrota política direta para o prefeito Del, que já entende como certa a presidência da Casa sob o comando de Belo Gazineu.
Essa articulação, segundo fontes ouvidas, contaria com a influência do ex-prefeito Dinha, criando um ambiente em que o passado político volta a disputar espaço com o presente — e, como de costume, em Simões Filho, ambos se confundem na mesma mesa de negociação.
Caso esse cenário venha a se confirmar, significaria que o ex-prefeito manteria forte influência simultânea na Prefeitura e na Câmara, desenhando um mapa político onde o atual prefeito ficaria, na prática, com margem ainda mais reduzida para decidir, articular e avançar em pautas estratégicas.
Ruídos assim, mesmo quando desmentidos, têm efeito imediato: inquietam a base, despertam suposições e alimentam a percepção de fragilidade.
O risco político como pano de fundo
O impacto dessa disputa, caso exista, seria extenso. A Câmara é quem julgará as contas de Del e analisará matérias estruturantes — incluindo, segundo informações amplamente debatidas pela cidade, o empréstimo bilionário que tem dividido opiniões.
Além disso, a permanência de secretários ligados ao ex-prefeito, não como “antigos aliados”, mas como indicações ainda ativas e estratégicas de Dinha dentro da gestão, reforça a leitura de que o equilíbrio político do governo está sendo testado diariamente.
A reforma administrativa articulada por Del, segundo interpretações políticas que circulam na cidade, teria justamente o objetivo de reorganizar o governo e reduzir essa influência direta. Contudo, mais uma vez, tudo isso permanece no campo das leituras políticas e dos sinais — jamais de fatos oficialmente confirmados.
A isso se somam outros elementos: a ausência de uma auditoria profunda nas contas da gestão anterior, a falta de autonomia em áreas estratégicas e o suposto distanciamento entre Del e Itus — já noticiado por outros veículos —, alimentando a narrativa de que a relação entre Executivo e Legislativo não é das mais pacíficas.
O que diz o presidente da Câmara
Diante da escalada dos comentários, o Tudo é Política buscou diretamente o presidente da Câmara, Itus Ramos, para compreender como ele enxerga o turbilhão de versões que o colocam no centro de uma disputa ainda embrionária.
De maneira objetiva, Itus afirmou que não existe qualquer acordo firmado, no momento de sua eleição, que previsse uma troca de comando no próximo biênio.
Segundo ele:
“Quando fui eleito presidente, não existia acordo para alternância no comando. Por isso, sou candidato natural à reeleição. Até agora, só tenho meu voto. Se os demais colegas entenderem que meu trabalho merece continuar, que votem.”
Itus também fez questão de destacar que considera muito cedo para transformar esse debate em pauta pública. Lembrou que foi um dos principais apoiadores da candidatura de Del para prefeito e vereadores, e rejeitou qualquer interpretação de que esteja “trabalhando contra” o Executivo:
“Não existe guerra. Não existe confronto. Não quero que a população forme essa imagem.”
E o que diz o governo Del?
A reportagem também procurou a comunicação da Prefeitura. Em resposta, a assessoria reforçou que todos os rumores são inverídicos, classificando os comentários que circulam pela cidade como “mentiras”.
A ver…
Versões destoantes, múltiplas narrativas, desmentidos firmes e um silêncio estratégico entre algumas partes envolvidas. Um cenário perfeito para que a política faça o que sabe fazer: criar zonas cinzentas entre o que é dito, o que é pensado e o que é planejado.
Enquanto isso, Simões Filho observa.
Os vereadores observam.
O prefeito observa.
E Itus observa.
Todos silenciosos.
Todos atentos.
Todos sabendo que, nesta cidade, o que se diz hoje vira fato amanhã — ou vira nada.
Mas uma coisa é certa:
a disputa pelo comando da Câmara ainda vai render muitos capítulos. E o eleitor, como sempre, está assistindo tudo do lado de fora, tentando entender quem articula, quem joga, quem perde e quem ganha.
No fim das contas, é a política sendo política — com dezessete vereadores, um prefeito e uma cidade inteira tentando decifrar o que vem pela frente.