A cidade de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, vive um momento de crescente insatisfação popular diante do avanço de um sistema que, embora apresentado pela gestão municipal como um mecanismo de “educação no trânsito”, é visto por muitos como uma verdadeira indústria das multas.
Desde que as blitz da Polícia Militar passaram a se tornar rotina em diversos pontos do município, motoristas têm relatado constrangimentos, medo de circular livremente e um sentimento de perseguição. Agora, com a previsão de entrada em operação de agentes municipais concursados com poder de autuar infrações a partir de julho ou agosto de 2025, o cenário pode se tornar ainda mais punitivo para quem depende de veículos no dia a dia.
População refém do próprio direito de ir e vir
As blitz constantes, somadas à futura atuação dos novos agentes de trânsito, criam o que muitos moradores já chamam de um sistema de punição contínua, onde a liberdade de ir e vir se transforma em um risco permanente de ser multado.
“Hoje, sair de casa de carro ou de moto em Simões Filho é como jogar na roleta. Você nunca sabe se vai voltar com uma multa no bolso”, comentou um morador do CIA I que pediu para não se identificado por medo de represárias.
O sentimento de revolta cresce à medida que a população percebe que, apesar da arrecadação milionária, nenhuma contrapartida prática é oferecida em troca. O discurso de que “as multas salvam vidas” se esvazia quando ruas seguem esburacadas, sem sinalização adequada, com retorno perigosos e ciclovias mal planejadas.
Prefeitura quer mais rigor, mas esquece da estrutura
Em entrevista ao podcast Pode Pensar, o superintendente de trânsito do município, Tarcísio Almeida, afirmou que o objetivo do novo sistema é “educar e proteger vidas”. No entanto, ele próprio reconheceu que pontos como o retorno da Vaca Burger, a rotatória do Cemitério e a Avenida Washington Luís apresentam riscos que a própria prefeitura ainda não solucionou.
Enquanto isso, os radares eletrônicos estão sendo preparados e um estudo para implementar o chamado zoneamento azul – que cria áreas de estacionamento pago – já está em curso.
Na prática, a cidade segue com problemas crônicos de mobilidade, mas se prepara para multar ainda mais. O que deveria ser um projeto de reestruturação urbana e de trânsito eficiente, se resume a uma máquina de arrecadação que recai justamente sobre os que mais precisam se locomover: os trabalhadores e pequenos comerciantes.
Para onde vai o dinheiro?
A grande dúvida da população de Simões Filho continua sem resposta: para onde está indo todo o dinheiro arrecadado? Nos últimos oito anos a cidade arrecadou e movimentou quase R$ 4 bilhões em recursos públicos, mas os sinais de desenvolvimento são tímidos ou inexistentes.
Nem mesmo os aliados do governo na Câmara conseguem justificar de forma convincente os reais benefícios que esses bilhões trouxeram ao município. Enquanto isso, aumentam os contratos com empresas terceirizadas para gerir sistemas de fiscalização, como radares e talonários eletrônicos, levantando ainda mais suspeitas sobre quem realmente lucra com esse rigor todo.
Fiscalização sem melhorias visíveis
Embora a gestão afirme que a fiscalização é necessária para evitar acidentes, a cidade ainda carece de intervenções concretas em sinalização, semáforos, calçadas acessíveis e vias bem projetadas. Sem essas melhorias, a punição por si só soa, para muitos, como um mecanismo de arrecadação disfarçado de avanço.
E, se depender da percepção do povo, esse “avanço” está muito mais para retrocesso.
Frase marcante do superintendente gera polêmica
Durante o podcast, Tarcísio Almeida chegou a dizer:
“Só reclama de blitz quem anda errado. Se você está com documentos em dia e dirige corretamente, não tem motivo para temer.”
A fala repercutiu mal entre os cidadãos, muitos dos quais relatam que mesmo com documentação em ordem, têm enfrentado abordagens abusivas e situações vexatórias.
Entre o discurso de segurança e a prática da punição
A população de Simões Filho não é contra a organização do trânsito nem contra medidas que tragam mais segurança. O que se questiona é a forma com que tudo tem sido feito, sem diálogo, sem investimentos estruturais e com um foco claro na arrecadação.
Enquanto o governo fala em “salvar vidas”, as ruas seguem perigosas, os retornos continuam mal planejados e a cidade parece ter se especializado em penalizar o cidadão ao invés de promover mobilidade com dignidade.
Com quase R$ 4 bilhões arrecadados e poucas melhorias visíveis, fica difícil defender que mais multas sejam a solução. Para muitos simõesfilhenses, essa nova etapa representa apenas mais um capítulo de um sistema que trata o cidadão como infrator por natureza, e não como parte de uma cidade que merece respeito, estrutura e transparência.