Na manhã deste domingo, 14 de dezembro, Simões Filho acordou em clima de corrida. Oficialmente, uma corrida de rua solidária, uniformizada em homenagem ao aniversário da deputada estadual Kátia Oliveira, com arrecadação de alimentos e estímulo à prática esportiva.
Na prática, porém, o asfalto contou outra história.
Presenças políticas e o pano de fundo do evento
O evento reuniu figuras centrais da política baiana: o deputado federal Paul Azi, o pré-candidato ao Governo do Estado ACM Neto, o ex-prefeito Diógenes Tolentino e, naturalmente, a deputada Kátia Oliveira. Tudo dentro do figurino esperado: fotos, sorrisos, vídeos curtos e discursos breves.
Mas a política raramente se limita ao que está oficialmente anunciado.
Quando o esporte fica em segundo plano
Para parte do público e de observadores mais atentos, a corrida assumiu contornos claros de pré-campanha. Não por falas explícitas — que não existiram —, mas pelo comportamento posterior nas redes sociais.
O que dominou os feeds não foi o incentivo ao esporte ou à saúde, mas a promoção pessoal e política dos nomes presentes. O caráter esportivo ficou em segundo plano, enquanto a disputa simbólica ganhou espaço.
O vídeo que alimentou o burburinho
O ponto central da controvérsia surgiu após a divulgação de um vídeo gravado ao final do evento. Nele, o prefeito Del aparece discursando de um palanque, ao lado de ACM Neto, Kátia Oliveira, Paul Azi e do ex-prefeito Dinha.
Rapidamente, o material passou a circular como uma suposta prova de que não há crise no grupo político local, nem rompimento entre Del e Dinha, além de indicar um apoio já consolidado do prefeito aos três nomes.
O que o vídeo mostra — e o que não mostra
Uma análise cuidadosa do conteúdo, no entanto, revela outra realidade.
O prefeito Del inicia sua fala com agradecimentos e referências religiosas. Cita aprendizados pessoais, versículos bíblicos e expressões como “Deus está no controle” e “Deus sabe o que está no nosso coração”.
Em determinado momento, chama Dinha de “meu amigo” e classifica ACM Neto como um “modelo de gestão”. São falas protocolares, comuns em ambientes públicos, e que não configuram, juridicamente ou politicamente, uma declaração formal de apoio.
Fé como refúgio discursivo
Há uma lição não escrita do jornalismo político que se impõe aqui: quando um político não quer — ou não pode — se posicionar de forma objetiva, a religião frequentemente surge como território seguro.
Citar a Bíblia não compromete, não afirma e não nega. Tudo permanece no campo da fé, onde perguntas diretas perdem força e respostas concretas deixam de ser exigidas.
Apoio que não foi declarado
Até o momento, não existe nenhuma declaração explícita, direta e incontestável de apoio do prefeito Del a ACM Neto ou ao deputado Paul Azi.
Se esse apoio tivesse sido verbalizado de forma clara, ele seria, sem dúvida, o principal conteúdo difundido nas redes sociais. Estaria recortado, legendado e repetido à exaustão em stories, vídeos curtos e publicações — inclusive por apoiadores de menor relevância na hierarquia do poder local.
Isso não aconteceu.
A importância estratégica de Simões Filho
E não aconteceria por acaso. Simões Filho ocupa posição estratégica no jogo político da Região Metropolitana de Salvador. Um apoio público e inequívoco do prefeito teria peso simbólico imediato.
Seria uma mensagem clara aos adversários: naquele território, o domínio eleitoral estaria consumado.
Mas, mesmo após busca minuciosa por vídeos, áudios e registros, nenhum trecho com essa declaração foi encontrado.
Um corte que chama atenção
Há ainda um detalhe curioso. O vídeo difundido como prova de alinhamento político é abruptamente interrompido justamente quando o prefeito começa a falar sobre suas “convicções”.
O corte impede qualquer conclusão mais sólida e reforça a sensação de que o que não foi dito pode ser tão relevante quanto o que foi exibido.
Presença que também comunica
Por outro lado, é impossível ignorar: se o prefeito Del não quisesse se submeter a esse tipo de leitura pública, poderia simplesmente não ter comparecido ao evento.
A presença da primeira-dama, registrada em vídeos ao lado da deputada Kátia Oliveira, com postura contida e sorriso protocolar, também chamou atenção. Na política, linguagem corporal comunica tanto quanto discursos.
Bastidores, rumores e cautela
Nos bastidores, circulam rumores — sem qualquer comprovação documental — de que o prefeito mantém diálogos avançados com o grupo do governador Jerônimo Rodrigues. Isso alimenta especulações sobre um possível rompimento futuro com o grupo do ex-prefeito Dinha.
Fala-se, inclusive, em uma eventual reforma administrativa e até em cenários envolvendo projetos eleitorais futuros da primeira-dama. Reitera-se: são rumores, comentários de bastidor que exigem cautela e responsabilidade na leitura.
A pergunta que permanece
Diante de tudo isso, uma questão segue sem resposta clara: existe algum impedimento real que impeça o prefeito Del de conduzir sua trajetória política com autonomia?
Se existe, a transparência exige que isso seja dito publicamente. Se não existe, também se espera clareza.
O que não parece razoável é manter a cidade refém de ambiguidades. Em política, especialmente em uma cidade estratégica como Simões Filho, o silêncio prolongado raramente é neutro. Ele também fala — e, muitas vezes, mais alto do que qualquer discurso.