Acordo entre partidos acelera propostas que limitam atuação do Supremo e reforçam privilégios a parlamentares
O clima na Câmara dos Deputados mudou após um acordo que uniu centrão e bolsonaristas em torno de uma pauta: restringir o alcance do Judiciário sobre os parlamentares. Líderes de legendas como PP, PSD, União Brasil e PL costuraram, em reuniões de bastidores, um pacote de projetos que inclui mudanças profundas nas regras de investigação e julgamento de políticos.
Principais pontos do acordo entre os partidos
- Fim do foro privilegiado, retirando casos de congressistas do Supremo Tribunal Federal
- Exigência de autorização do Legislativo para investigar parlamentares
- Prisão apenas em flagrante ou por crimes inafiançáveis
- Encaminhamento de alguns processos diretamente ao Superior Tribunal de Justiça
A movimentação foi articulada no gabinete da presidência da Câmara. Embora o comando da Casa tenha tentado se afastar da pauta, líderes já preparam a votação para a próxima semana. A estratégia prevê acelerar a tramitação e criar um escudo político contra ações judiciais consideradas invasivas.
Reação na Câmara expõe desgaste na liderança
O presidente da Câmara tentou minimizar o impacto do acordo, afirmando que “a presidência é inegociável” e que não vincula retomada de trabalhos a pautas específicas. No entanto, nos corredores, a percepção é de que ele saiu enfraquecido após não conseguir conter o motim de parlamentares e quase ser confrontado publicamente durante a ocupação do plenário.
Líderes como Sóstenes Cavalcante confirmaram que a maioria dos partidos pretende votar não apenas o fim do foro privilegiado, mas também a anistia a investigados por atos antidemocráticos. Essa inclusão reforça a aliança entre grupos que, até pouco tempo atrás, disputavam espaço e influência.
Senado mantém postura firme contra pressão
No Senado, a resistência foi maior. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, rejeitou pedidos para pautar o impeachment de ministros do Supremo, mesmo após oposicionistas recolherem 41 assinaturas. Ele declarou que não colocaria o tema em votação “nem com 81 assinaturas”.
Durante a mesma sessão, os senadores aprovaram em apenas 15 minutos o projeto que amplia a isenção do imposto de renda para quem ganha até dois salários mínimos, medida que agora aguarda sanção presidencial. Apesar da votação rápida, o clima continua tenso, com grupos pressionando por mudanças no Supremo.
Disputa política ganha novos alvos
O deputado Nikolas Ferreira ampliou seu discurso e passou a defender não apenas o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, mas também de Alcolumbre. Segundo ele, a negativa do Senado em avaliar a saída de Moraes justificaria dois processos de afastamento.
Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve diálogo com Gilberto Kassab, presidente do PSD, em um almoço reservado no Palácio do Alvorada. Na conversa, Lula criticou o bloqueio de pautas e a defesa de tarifas impostas por Donald Trump, afirmando que tal postura prejudica o Brasil. Kassab, por sua vez, reforçou que o PSD tem seu próprio projeto presidencial para 2026.
Consequências para o cenário político
As negociações indicam que a blindagem contra ações do Judiciário será um tema central no Congresso nos próximos meses. Com centrão e bolsonaristas atuando lado a lado, cresce o risco de mudanças que reduzam a transparência e dificultem a responsabilização de parlamentares.
A pressão sobre o Senado e a articulação na Câmara mostram que a disputa entre Legislativo e Judiciário está longe de arrefecer.