As disputas internas do Partido dos Trabalhadores na Bahia, que deveriam ser apenas processos administrativos para renovar os diretórios municipais e estadual, vêm ganhando ares de novela política. Um episódio recente colocou em lados opostos dois nomes de peso do partido: os deputados Rosemberg Pinto e Ivoneide Caetano.
O estopim do atrito foi um vídeo publicado por Ivoneide, deputada federal e primeira-dama de Camaçari, no qual ela manifesta apoio a uma chapa que disputa o comando do diretório do PT em São Francisco do Conde. Até aí, nada demais — não fosse a justificativa usada: ela ressalta que seus apoiados são “filhos da terra”, em contraste com outro candidato ao cargo, o deputado estadual Rosemberg Pinto, que mora na cidade, mas não nasceu nela.
A fala foi interpretada como uma cutucada indireta, e Rosemberg não deixou passar. Em uma resposta pública, o parlamentar classificou o comentário como preconceituoso e contraditório, lembrando que Ivoneide é natural de Biritinga e construiu sua carreira política em Camaçari, onde ele próprio esteve ao lado dela em 2020, durante sua campanha à prefeitura.
“A senhora pode escolher quem quiser, mas não te dá o direito de fazer uma fala preconceituosa… Assim como a senhora escolheu Camaçari, eu estive aí rodando com a senhora em todos os cantos da cidade”, disparou Rosemberg.
Nos bastidores, o episódio reacende uma tensão mal resolvida dentro do partido. Aliados de Rosemberg acusam Ivoneide de tentar avançar sobre territórios políticos para além dos seus limites, inclusive ganhando mais protagonismo que o próprio marido, Luiz Caetano, nome histórico do partido e prefeito de Camaçari.
O silêncio da deputada após o contra-ataque apenas reforça a percepção de que o desgaste entre os dois parlamentares não é novo — e que o vídeo foi apenas a faísca de um barril prestes a explodir.
A disputa interna do PT, que também se acirra em outros municípios estratégicos, pode ter impactos além da composição de diretórios. A maneira como os embates estão sendo conduzidos revela um conflito de gerações, estilos e projetos pessoais, com potencial para influenciar até as próximas articulações estaduais e federais.
O partido, que historicamente valoriza o debate interno, agora assiste a uma batalha onde discursos simbólicos se tornam munição e antigos aliados trocam gentilezas públicas por farpas afiadas. E como nas boas novelas políticas, o desfecho dessa trama ainda está longe do capítulo final.