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CULTURA

REPORTAGEM ESPECIAL – Resistentes da Liberdade: Aldeia Hippie de Arembepe – BA

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Aldeia Hippie de Arembepe

Por Diego Oliveira

Como um “espectro”, na década de 1960 surgia o movimento hippie na cidade de São Francisco, localizada na costa oeste dos Estados Unidos. Pregando o amor livre, liberdade, coletividade, respeito à natureza e a busca por uma sociedade pacifica e longe de conflitos, reforçando o lema aderido e proclamado pelos seus alternativos: “Paz e Amor”.

O movimento hippie foi uma espécie de herdeiro da cultura beat americana, que se fazia contraria aos valores tradicionais da sua sociedade, cultura e costumes como a moral, o casamento, os padrões sociais de beleza e estética e o estilo de vida baseado no consumo desacerbado.

Os propagadores da cultura beat foram escritores americanos que se mobilizaram em fazer críticas através de obras literárias tendo como foco em seus manifestos a sociedade americana. Nomes como Allen Ginsberg, William Burroughs, Jack Kerouac e outros escritores foram vetores de um movimento critico que se baseava em uma sociedade diferente dos costumes e padrões que regiam a sociedade americana na oportunidade.

Partindo dessa força ideológica que clamava por mudança e por uma sociedade diferente do clichê social, levantaram-se jovens com o sentimento de revolta em virtude dos acontecimentos violentos na guerra do Vietnã, com os ideais motivados pela paz. “Faça amor e não a guerra”, “paz e amor”, foram frases disseminadas com o objetivo de levantar um movimento contrário a guerra e toda aquela atmosfera de violência e apreensão que tomava conta do mundo.

Em virtude deste posicionamento de contestação, luta por uma sociedade diferente, respeitando as relações sociais, longe das divergências comercias e tendo como filosofia de vida uma cultura distinta da cultura vigente, o movimento hippie se caracteriza como um movimento da contracultura.

Foto reprodução Google | Jovens americanos fazem protesto contra a guerra do Vietnã

Passados 60 anos desde o surgimento do movimento hippie, mergulhamos em um longo trabalho de pesquisa, apuração e sobretudo relação interpessoal com os integrantes do movimente alternativo de Arembepe, localizado em Camaçari-Ba na região metropolitana de Salvador. A aldeia hippie de Arembepe é segundo os seus moradores e agentes de turismo do Governo do Estado da Bahia a única e legítima aldeia hippie do mundo.

Ao chegar no local consegui rapidamente identificar os seus moradores e entender a forma alternativa de vida de seus aldeões, caracterizados por suas vestes, colares, seus cabelos ao vento e sempre pisando de pés descalços na areia. Inicialmente fiquei maravilhado com beleza natural da aldeia cercada por uma vegetação bem ampla e banhada pelas águas da praia e do Rio Capivara que corre pelos seus arredores, transformando o lugar em um paraíso para seus habitantes e visitantes.

De imediato consegui manter contatos com alguns hippies artesãos que vendiam e confeccionavam livremente seus artesanatos para os turistas e visitantes do local na feira de artesanato. Logo fiz o pedido para me identificar e mostrar minha proposta de pesquisa e entrevistas com os aldeões para saber como resiste o movimento em pleno século 21. Sem qualquer resistência dos entrevistados pude colher informações sobre a história, convivência e filosofia de vida adotadas por eles.

Foto Diego Oliveira | Artesão Álvaro confeccionando seus artesanatos

“O movimento hippie é a busca utópica por liberdade. Estamos mantendo a história do movimento fazendo justiça a filosofia e vivendo em comunhão com a natureza e desfrutando de tudo que ela nos oferece, assim vamos escrevendo essa história que não terá fim”, afirmou Álvaro.

Sobrevivência

Foto & Edição Diego Oliveira | O artesanato é a principal atividade econômica praticada pelos hippies

Anos, décadas e diversos acontecimentos se passaram ao longo de todo esse tempo, famílias foram constituídas, outras cabanas foram levantadas e novos integrantes resolveram aderir o hippismo de Arembepe. De acordo com um levantamento feito no período de pesquisa para a construção da reportagem, cerca de 50 pessoas vivem no local e sobrevivem através do artesanato que é a atividade predominante junto a pesca, agricultura familiar, criação de algumas aves e carneiros. Essa relação de cordialidade, união e coletividade entre os aldeões propícia livres trocas de alimentos, animais, pescados e vestes, fazendo assim do ambiente um local de sinergia e atmosfera constante de solidariedade, amizade e empatia que são elementos que conduzem a sobrevivência dos atuais Aldeões.

Refúgio dos Famosos

Natural de Salvador – Ba, o jovem Josbasã popularmente conhecido por “Cebola” é proprietário de um Campping na aldeia. O local é bem alternativo e dispõe de barracas, choupanas e redes para os visitantes que buscam acampar no paraíso de Arembepe.

Segundo Cebola o local que já recebeu há anos atrás figuras como Janis Joplin, Mick Jagger, Gilberto Gil, Caetano, Raul Seixas, Rira Lee, o poeta Torquato Neto, Tom Zé, Novos Baianos e entre outras personalidades ilustres que buscavam a paz e inspiração na bucólica Arembepe. 

O local continua recebendo diversos famosos que buscam conhecer a famosa aldeia, sua história e seus atributos naturais. “Recentemente marcou presença aqui o ex-jogador e comentarista Casagrande, a atriz Mariza Hort, Falcão do Rappa, Mano Góes e entre outros que me fogem a cabeça agora, são muitos”, falou sorrindo Cebola.

Foto imagem cedida pelo proprietário | O ex-jogador Walter Casagrande e a atriz Mariza Hort marcaram presença na aldeia hippie de Arembepe durante o verão de 2019.

“O Casagrande é muito gente fina, ele curte o movimento alternativo, o rock and roll e é muito simples. A amizade foi inevitável”, destacou Cebola sobre o atual comentarista da Rede Globo.

Culinária Peculiar

Durante os dias de investigação, entrevistas e pesquisas sobre o movimento hippie de Arembepe fui surpreendido positivamente pela desenvoltura e o domínio dos aldeões em produzir comidas peculiares e diferentes de todas que tinha provado até hoje.

Foto Diego Oliveira | Em grupo os aldeões produzem seus alimentos com produtos cultivados na aldeia. 

Diferente do tempero baiano predominante na capital e toda região metropolitana, a culinária desenvolvida pelos alternativos é composta de frutas no preparo dos peixes e das carnes. Canela, nozes, algas marinhas, castanhas do pará, frutas em geral, verduras e legumes cultivados de forma orgânica é base na alimentação diária das famílias.

Foto Diego Oliveira | Ingredientes naturais e orgânicos cultivados na aldeia.

Segundo a mestre de cozinha Laura, que atou nas cozinhas de grandes hotéis e restaurantes da capital baiana antes de se tornar hippie na década 90, a culinária do movimento hippie é feita com muito amor e improviso. “Nossa comida carrega sabores de todo o mundo. Aqui tem chilenos, argentinos, paulistas, uruguaios e todos carregam suas particularidades nos sabores” disse a cozinheira.

“Imagina aí, você mora no meio da natureza, não é um supermercado. Aqui é preciso cozinhar com o que vem da mãe natureza e improvisar com o que já foi colhido, pescado ou até mesmo caçado” disse aos risos.

Consumo de Substâncias Psicoativas 

Foto reprodução Google

Maconha, LSD, chás de cogumelos, ópio, haxixe, e entre outras drogas sempre estiveram presentes no movimento hippie. Segundo eles elevar a matéria, o espírito e o intelecto a experiências diferentes sempre foi um dos lemas dos alternativos.

Através do uso dos psicoativos alcançar estágios alterados, vibrantes e coloridos sempre estiveram na filosofia do movimento.

Segundo o artesão argentino Jorge Lincoln, existem muitas drogas ao alcance dos seres humanos, sendo algumas benéficas para experiências transcendentais e outras destrutivas para o organismo humano. “Fiz uso e continuo fazendo as minhas experiências com alguns psicoativos. Existem muitas coisas boas como a marijuana (maconha), o chá de cogumelo e o haxixe que são elementos naturais que elevam o ser humano a patamares de autoconhecimento aguçando o intelecto e trazendo uma outra realidade que em estado sóbrio não somos capazes de alcançar”, declarou Lincoln.

Segundo o artesão, à instrumentação do capitalismo através dos grandes laboratórios criou outras substâncias para escravizar o homem e destruí-lo paulatinamente.

”Drogas destrutivas criadas pelos malditos capitalistas dos grandes laboratórios como o crack, cocaína, heroína, oxy e inúmeros fármacos antidepressivos e ansiolíticos são ferramentas para escravizar o homem livre e acabar com a raça humana”, fez questão de frisar.

Arte, cultura e educação como filosofia de vida

Em cada canto da aldeia acontece uma manifestação de arte e cultura. Produção de artesanatos, composição de músicas, pinturas, escritas criativas, poesia, roda de música sobre fogueira e entre outras formas de colorir a existência em formato de arte é clichê.

Ao presenciar tantas formas de manifestar os sentimentos através das artes, confesso que foi uma experiência fantástica e nova. Foi incrível ver como crianças e jovens aprendem tão cedo a tocar um instrumento musical, improvisa-los e fazer mágicos sons com a boca ou com a palma das mãos.

Foto Projeto Tamar | Escola Menino Luz em plena aldeia hippie de Arembepe

Funciona na aldeia uma escola infantil e comunitária que passam conhecimentos e alfabetizam crianças e jovens filhos de aldeões com muita leitura, dinâmicas e formatos alternativos que fazem das aulas uma verdadeira diversão.

O nível intelectual dos hippies é altíssimo. Médicos, professores, engenheiros, jornalistas, psicólogos e outros tantos profissionais compõem uma sociedade brilhante dotada de muitos conhecimentos e habilidades em prol da filosofia da unidade e liberdade que guia o movimento hippie.

A sociedade e o preconceito

Ao iniciar todo o trabalho de reportagem e interação com os hippies de Arembepe, fiz questão de abordar um assunto existente na nossa sociedade e ao mesmo tempo desmitificar, o preconceito contra o povo alternativo.

Antes mesmo de entrar de cabeça e buscar informações sobre o objeto de pesquisa e investigação eu já sabia que grande parte da sociedade tem plena aversão ao modo de vida hippie, seus costumes e convicções. São diversos os rótulos e estigmas que foram postos de forma incoerente.

Em um longo bate papo com Álvaro, um dos anciãos da aldeia, o perguntei sobre o assunto e qual o motivo de tanta resistência contra o povo do “paz e Amor”.

“O moralista é um invejoso do prazer alheio. Imagina o camarada que todo dia pega ônibus cheio, trabalha 10h por dia, e encara os transtornos da vida urbana, só pode ter inveja mesmo”, declarou.

Foto do arquivo pessoal Álvaro | Álvaro é uma espécie de guru e conselheiro para os mais jovens integrantes do movimento hippie

São diversos os rótulos e impropérios empregados ao movimento e sua filosofia. Preguiçosos, loucos, mendigos e entre outras formas de manifestar o preconceito. “Estudamos, produzimos, educamos, fazemos arte. Plantamos, colhemos e promovemos a paz. Somos mensageiros da positividade, não merecemos isso”, completou Álvaro.

O artesão é um dos mais velhos hippies da aldeia com 82 anos, muita saúde e uma vitalidade incrível. “O meu segredo de existência está na consciência tranquila e no amor ao próximo, vivo minha paz e carrego comigo o sentimento de união. Isso sim me segura de pé”, garantiu.

As novas gerações

Com o avançar dos anos diversos são os jovens que resolvem aderir ao movimento alternativo e viver conforme a filosofia hippie.

“Muitos garotos e garotas iniciam no movimento deixando para trás trabalho, participação assídua na família e velhos costumes impostos pela sociedade”, conta o Urugaio.

Foto Selfie Diego Oliveira | Ao lado do hippie artesão urugaio Héctor Santarena

O artesão urugaio de 68 anos participou de diversas gerações e entende que a continuidade está na adesão de novos jovens nos ensinamentos dos pais para com os filhos criados na aldeia e na conservação da essência alternativa.

Foto Diego Oliveira | Nova geração de hippies de Arembepe

“O futuro do movimento hippie de Arembepe está nas novas gerações, filhos de aldeões e novas pessoas que venham aderir a nossa filosofia e cultivar nossa cultura de convívio harmônico com a natureza. Na convivência com os irmãos de movimento e sobretudo com mundo, sempre disseminando o amor a paz e arte”, garantiu.

P U B L I C I D A D E

CULTURA

GENIVAL LACERDA MORRE AOS 89 ANOS, VÍTIMA DE COVID-19

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Genival Lacerda morre aos 89 anos vítima da Covid-19

QUEMO cantor Genival Lacerda, de 89 anos de idade, morreu por complicações da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus na manhã desta quinta-feira (7). Ele estava internado na UTI desde o dia 30 de novembro e, segundo recentes comunicados da assessoria de imprensa dele, seu estado era grave e ele respirava com a ajuda de aparelhos.

Com mensagem breve em seu Instagram, o filho do cantor, Genival Lacerda Filho, revelou a informação no começo da manhã desta quinta-feira (7). “Painho faleceu”, disse em seus stories.

Genival Lacerda Filho informa os seguidores sobre a morte do cantor Genival Lacerda (Foto: Reprodução / Instagram)

“O quadro de saúde de Genival Lacerda  continua grave, com pneumonia severa, ainda sem apresentar melhoras. A pressão arterial está controlada e os rins funcionando bem.”, dizia o boletim divulgado no último domingo (20).

No dia 8 de dezembro Genival teve a pressão arterial e as taxas normalizadas, além de cessão da febre. De acordo com a assessoria de imprensa do artista, com a boa nova ele teve inclusive redução na sedação.

INTERNAÇÃO
No último 30 de novembro, Genival Lacerda foi internado na UTI após testar positivo para a Covid-19. Em meados de maio, o cantor já tinha passado pelo hospital e sido internado após sofrer um AVC. Segundo o Jornal do Comércio, o cantor paraibano estava em casa quando passou mal.

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CULTURA

Justiça considera improcedente ação de Suzane Von Richtofen contra produtora de filmes

Condenada a 29 anos de prisão pela morte dos pais, ela alega que não autorização para os filmes da Santa Rita

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Metro1 – A ação movida por Suzane Von Richthofen contra a empresa Santa Rita Filmes, responsável pela produção dos longas “A Menina Que Matou Os Pais” e “O Menino Que Matou Meus Pais”, foi considerada improcedente pela Justiça.

No processo, Suzane, condenada a 29 anos de prisão pela morte dos pais, alega que não deu autorização para as produções. A decisão de primeira instância, no entanto, já foi transitada em julgado e, por isso, não haverá impedimentos para as estreias oficiais dos filmes, previstas para o dia 2 de abril. Antes disso, no entanto, os cinéfilos já poderão assistir, a partir de 19 de março, aos longas em sequência pelo preço de um ingresso. 

Dirigidos Mauricio Eça, com roteiros de Ilana Casoy e Raphael Montes, “A Menina Que Matou Os Pais” e “O Menino Que Matou Os Pais” trazem nos elencos nomes como Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Allan Souza Lima, Kauan Ceglio, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann, Debora Duboc, Augusto Madeira, Gabi Lopes, entre outros.

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CULTURA

Documentário aborda intolerância religiosa e revela polêmica sobre o acarajé

‘Àkàrà, no fogo da intolerância’ será exibido quarta-feira em Lauro de Freitas

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Metro1 – Em tempos de intolerância religiosa e polarização política, sobrou até mesmo para uma das iguarias mais tradicionais da culinária baiana, o acarajé. O documentário ‘Àkàrà, no fogo da intolerância’ propõe o resgate de acontecimentos históricos através de relatos de baianas de acarajé.

O quitute corre o risco de perder o título de Patrimônio Histórico e Imaterial pela descaracterização da sua receita original e comercialização por pessoas de outros credos.

O longa será exibido gratuitamente quarta-feira (12), no Cine Teatro Lauro de Freitas, às 18h. Após a exibição do documentário haverá uma mesa de debate sobre intolerância religiosa.

O que: Exibição do documentário Àkàrà, no fogo da intolerância

Quando: Quarta-feira (12 de fevereiro), às 18 horas          

Onde: Cine Teatro Lauro de Freitas (Praça João Thiago dos Santos, S/N – Centro), Lauro de Freitas    

Entrada gratuita

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