O país está rachado ao meio — e os números agora têm nome e sobrenome geográfico.
Enquanto a pesquisa nacional aponta empate técnico na corrida presidencial, um levantamento muito mais detalhado mostra que o Brasil real está dividido em “três Brasis” bem demarcados. A análise é do diretor do instituto Quaest, Felipe Nunes, e os dados chamam atenção pela nitidez das fronteiras eleitorais.
TRÊS BLOCOS, UM PAÍS DIVIDIDO
O presidente Lula lidera em 10 unidades federativas — todos os nove estados do Nordeste mais o Amapá. O senador Flávio Bolsonaro aparece à frente em 8 estados: Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Acre, Rondônia e Roraima.
O ponto que mais gera debate: outros nove estados estão em empate técnico dentro da margem de erro. Entre eles, as praças mais decisivas do país — São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
“TROCOU O NOME, O ELEITORADO FICOU”
A frase de Felipe Nunes resume o cenário com uma precisão que incomoda os dois lados. A correlação entre o voto de Lula em cada estado e o resultado de 2022 é de 0,98. Do lado de Flávio, a repetição do mapa do pai alcança 0,95.
Na prática, significa calcificação. O eleitorado não migrou — apenas trocou de candidato na mesma trincheira.
ONDE LULA AVANÇA — E ONDE FLÁVIO PERDE CHÃO
Lula aprofundou o desempenho onde já era forte: Maranhão (+7), Bahia (+6), Paraíba (+4), Sergipe (+4) e Amapá (+6). Fora desse eixo, as variações foram mais modestas — com quedas em Goiás (-3) e Tocantins (-3).
Flávio Bolsonaro cresceu no Norte e Centro-Oeste — Rondônia (+6), Mato Grosso (+5) e Pará (+4) — mas recuou onde a direita tem alternativas próprias: Distrito Federal (-8), Goiás (-6), Paraná (-3), Rio Grande do Sul (-3) e Espírito Santo (-3).
O JOGO ESTÁ NOS INDEPENDENTES
Aqui mora a chave da eleição. Os eleitores independentes representam de 24% a 36% do total nos estados. O teto está no Rio de Janeiro (36%), Amazonas (35%), Tocantins, Rio Grande do Sul e Goiás (33% cada).
Lula consegue avançar além da base tradicional — em quase todos os estados, supera a soma de lulistas declarados mais esquerda não lulista. Flávio, por outro lado, enfrenta dificuldades para consolidar sua base em Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e São Paulo, onde fica abaixo da soma total da direita.
MEDO COMO ARMA ELEITORAL
O sentimento de rejeição organiza o voto de forma direta. No Nordeste, quase 60% dos entrevistados afirmam temer o retorno da família Bolsonaro. Nas regiões Norte e Sul, até 64% relatam medo de mais um mandato de Lula.
Em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás, 8% dos eleitores temem ambos os lados — a parcela onde reside o eleitor em disputa mais acirrada.
QUEM VAI GANHAR? OS ELEITORES APOSTAM EM LULA
Apesar do empate nas pesquisas estimuladas, a percepção de favoritismo pende para o atual presidente. Em São Paulo, 50% acreditam na vitória de Lula contra 35% que apostam em Flávio. No Rio de Janeiro, 49% a 37%. No Paraná, 44% a 40%.
Flávio só é apontado como provável vencedor pela maioria em 7 estados.
A ÚLTIMA SEMANA
Entre quem já declara voto, 11% a 23% admitem que podem mudar de escolha. Os mais voláteis estão no Paraná (23%), Amapá (21%), São Paulo (20%), Santa Catarina (20%), Minas Gerais (19%) e Distrito Federal (19%).
O próprio Felipe Nunes resume: “O empate nacional esconde um país calcificado, um eleitor independente concentrado no Centro-Sul que ainda pode se mover, e estados com pressa de resolver a eleição para governador. A última semana vai ser decisiva.”
O QUE VOCÊ PRECISA SABER?
- Três Brasis: Lula lidera em 10 estados (Nordeste + Amapá), Flávio em 8 (Sul, Centro-Oeste, RJ e parte do Norte), e 9 estados estão em empate técnico — incluindo SP, MG e RS.
- Calcificação: O voto de Lula repete 2022 com 98% de correlação; o de Flávio, com 95%. “Trocou o nome, o eleitorado ficou.”
- Fiel da balança: Independentes representam até 36% dos eleitores nos estados e podem definir a eleição.
- Medo como motor: 60% no Nordeste temem retorno bolsonarista; 64% no Norte/Sul temem mais um mandato lulista.
- Volatilidade aberta: Até 23% dos eleitores admitem que podem mudar o voto na última semana.