Reconhecimento federal escancara fragilidade da infraestrutura urbana. Comércio e cultura local sofrem com a negligência da gestão e o possível apagamento do tradicional Arraiá das Viúvas.
O município de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), teve a situação de emergência reconhecida pelo Governo Federal por conta dos impactos provocados pelas fortes chuvas que atingiram a cidade nas últimas semanas. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta quarta-feira (20), por meio da Portaria nº 1.588/2025, assinada pelo Secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil.
A medida foi tomada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), após análise técnica do Formulário de Informações do Desastre (FIDE), que descreve os danos materiais e sociais enfrentados pelo município.
Simões Filho entre os municípios baianos em emergência
Com o decreto, Simões Filho passa a integrar oficialmente a lista de cidades baianas em situação de emergência. Segundo a Defesa Civil Nacional, a Bahia contabiliza 99 decretos ativos, sendo 74 por estiagem, 23 por chuvas intensas, um por enxurradas e um por alagamentos.
Diante do cenário crítico, a Prefeitura intensificou a Operação Chuva, com frentes de trabalho atuando em diversos bairros, realizando limpeza urbana, desobstrução de canais, retirada de entulhos, reparos emergenciais e assistência às famílias atingidas.
A Defesa Civil Municipal segue em estado de alerta e pode ser acionada pela população por meio do telefone (71) 3296-9216.
Críticas à falta de estrutura e à negligência cultural e comercial
Apesar das ações emergenciais, a situação das chuvas revelou a fragilidade estrutural acumulada da cidade. A falta de investimentos em drenagem, encostas e vias públicas, somada à ineficiência da gestão anterior — que gastou quase R$ 4 bilhões em oito anos, segundo dados oficiais — evidencia uma herança de abandono urbano que impacta diretamente a qualidade de vida da população.
Além dos prejuízos físicos, a falta de incentivo à cultura local e ao comércio já é sentida às vésperas do período junino. Em Simões Filho, a festa tradicional do São Pedro – Arraiá das Viúvas, que há décadas movimenta a economia e preserva os costumes da cidade, mais uma vez corre o risco de não ser realizada com a devida estrutura ou apoio.
Moradores e comerciantes reclamam que o evento tem sido progressivamente esquecido pelas gestões municipais, especialmente por não estar alinhado ao espectro evangélico dominante na política local. Isso tem levado ao apagamento gradual da identidade cultural junina da cidade.
“O Arraiá das Viúvas faz parte da história do nosso povo. É tradição, é renda, é alegria. Mas parece que querem apagar isso por questões religiosas. E o comércio sofre junto”, relata um vendedor de milho que há 15 anos trabalha no período junino.
Sem estrutura adequada ou programação oficial divulgada, o comércio local já sente os efeitos da ausência de políticas de incentivo. As festas juninas representam, historicamente, um dos períodos mais importantes para vendedores ambulantes, pequenos comerciantes, artistas locais e para a economia informal da cidade.
População cobra investimentos reais e respeito às tradições
Com o reconhecimento federal da situação de emergência, a Prefeitura poderá acessar recursos para ações emergenciais e de reconstrução. Mas cresce o clamor popular por ações estruturantes e respeito às manifestações culturais da cidade.
A negligência com o Arraiá das Viúvas é vista por muitos como sintoma de uma administração que prioriza interesses religiosos e políticos em detrimento do bem coletivo, afetando a economia, a cultura e a autoestima da população.
Enquanto as águas baixam, fica o pedido da cidade para que os gestores tratem a cultura como parte da reconstrução — não apenas de ruas, mas de identidades. Porque sem festa, sem história e sem povo, não há cidade que se sustente em pé.