No embalo do “Capital Afro”, gestão investe pesado na própria equipe enquanto o povo segue pagando a conta
Já ouviu falar no “E pode?” — aquele bordão que vem virando o novo iPod das redes? Pois é. Na Salvador da “gestão moderna”, tudo parece ter um E pode? encaixado no fim da frase. Agora, o motivo da vez é o doutorado de R$ 203,9 mil pago pela Prefeitura de Salvador para a vice-prefeita e secretária de Cultura e Turismo, Ana Paula Matos (PDT).
O que tem nesse “E pode?”
- Contrato de R$ 203,9 mil com a Fundação Dom Cabral
- Dispensa de licitação
- Curso pago com verba da própria secretaria comandada pela vice-prefeita
- Projeto “Salvador Capital Afro” como justificativa
- Silêncio estratégico do prefeito Bruno Reis (UB)
O contrato foi publicado no Diário Oficial de 9 de maio e, segundo a prefeitura, faz parte de um programa de “qualificação de lideranças” com foco no projeto Salvador Capital Afro, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O discurso é bonito: fala em legado, interculturalidade e valorização da herança africana. Mas, cá entre nós… E pode?
Doutorado público, bolso privado
A prefeitura garante que o curso beneficiará a cidade. Contudo, a fatura sai do mesmo cofre que paga as festas populares e o reparo de museus que vivem pedindo socorro.
É aquele “carisma administrativo” herdado do velho Carlismo, só que com terno slim-fit e marketing digital. O modelo é o mesmo: o poder público bancando o futuro dos de cima, enquanto os de baixo esperam um reajuste na tarifa de ônibus ou o asfalto prometido há três verões.
E o prefeito Bruno Reis, que sonha alto e já ensaia voos rumo ao governo do estado, não viu problema nenhum. Nem ele, nem o espelho que reflete o estilo de gestão que vem lá dos tempos de ACM Neto — e, no fundo, do velho ACM.
Legal? Pode até ser. Mas é moral?
A questão não é só legalidade, mas moralidade. Quando o mesmo poder público que corta programas sociais decide bancar R$ 203 mil em um curso de elite, a pergunta volta: E pode?
Na semana passada, um caso parecido, com a secretária da Fazenda, Giovanna Victer, foi suspenso pela Justiça. Ela faria um doutorado de R$ 183 mil na FGV. Diante da repercussão, resolveu pagar do próprio bolso. Já Ana Paula parece confortável. Afinal, o BID entra na conta, e o discurso do legado cultural dá um verniz elegante.
Um velho estilo com roupa nova
Bruno Reis é “cria” de ACM Neto e mantém o estilo carlismo de condomínio: sorriso pronto, discurso técnico e decisões que, quase sempre, beneficiam quem já está no topo.
Enquanto isso, a cidade real segue lutando com buracos, ônibus lotados e escolas com teto pingando. Mas quem se importa, né? Desde que o doutorado tenha coffee break e networking internacional, está tudo bem.
A política baiana adora um upgrade de imagem. É o velho jogo de narrativas: o gestor que se pinta de inovador, mas age com a cartilha do poder de sempre.
Talvez o “E pode?” seja o novo grito irônico da cidade que aprendeu a rir pra não chorar. Porque se o povo não pode pagar um cursinho técnico, quem pode mesmo é quem já está dentro da máquina.
No fim das contas, a pergunta “E pode?” é mais do que um trocadilho e revela o modelo político que ainda domina Salvador: o que fala em “modernidade”, mas mantém os privilégios antigos de sempre.
E você, leitor, olhando pra tudo isso, acha que E pode mesmo? 🤔