Se foi Azaza.
Não devagar, mas com a pressa das estrelas que sabem que seu brilho não cabe num só céu.
Se foi nosso irmão, nosso pai, nossa mãe coletiva…
Nosso preto velho, cozinheiro de tropas e almas,
Que temperava o feijão com dendê e poesia.
Em Simões Filho, ele foi teatro inteiro.
Palco, cortina, roteiro, aplauso.
Fez da rua um espetáculo,
E da vida, um poema com gosto de comida boa, cheiro de sabor e amor.
Era grande — não só no corpo,
Mas no gesto, na gargalhada,
No abraço que parecia um Quilombo inteiro se enlaçando em nós.
Com suas mãos que mais pareciam instrumentos de magia:
Tinham o peso suave de uma borboleta,
E a força justa de um martelo de juiz —
Justiça essa que ele tanto sonhou ver na arte.
Ouviu Bethânia como quem ouve oráculo,
E fez a gente ouvir também.
Fez a gente amar o que não sabíamos amar:
A beleza da resistência,
A alegria da partilha,
A coragem de ser inteiro.
Os doutores, os senhores dos asfaltos apressados,
Não souberam lhe ver.
Pra eles, cultura é luxo,
E artista é só mais um pedinte.
Mas Azaza era rei —
Rei sem coroa, mas com fogão aceso e coração aberto.
Hoje, ele se vai.
Mas deixa mais que lembrança:
Deixa um caminho.
Deixa a semente — viva, fértil, nossa.
A semente da arte,
Do amor ao próximo,
Da palavra que não morre.
Azaza era José Rodrigues Ferreira,
Mas pra nós será sempre o Azaza —
O amigo de mãos imensas,
Que nos ensinou que viver é também encenar,
E que amar é também resistir.
Descanse em palco alto, meu irmão.
Te aplaudo de pé, com o coração na mão.
Por Mário Luiz Nobre