A seis dias do primeiro turno, apresentação da plataforma “Tem Meu Voto” no Domingão virou alvo de representação eleitoral — e o caso pode crescer
A campanha eleitoral entrou na reta final, e quem menos se esperava virar protagonista de uma disputa jurídica foi Luciano Huck. A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) anunciou, na última segunda-feira (28), que acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) contra o apresentador e a Globo. O motivo: a apresentação da plataforma “Tem Meu Voto” no Domingão com Huck, no dia 27.
O timing chama atenção. A exibição aconteceu a apenas seis dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. E é justamente essa proximidade com a data da eleição que levanta questionamentos sobre os limites entre conteúdo jornalístico, entretenimento e propaganda eleitoral.
O que é o “Tem Meu Voto” e por que virou caso de polícia
A plataforma se descreve como independente e apartidária. Na prática, funciona como um “match” entre eleitor e candidato: o usuário responde a um questionário com oito temas políticos, em uma escala de cinco níveis — da discordância total à concordância total. O sistema então calcula um percentual de compatibilidade com cada candidatura ao Senado, à Câmara e às Assembleias Legislativas.
O eleitor ainda pode dar peso maior aos temas que considera mais decisivos. Esse peso entra no cálculo final. Segundo a plataforma, as posições dos candidatos são definidas prioritariamente pelas próprias respostas enviadas pelas candidaturas. Na falta delas, o sistema recorre a votações nominais de deputados federais ou ao comportamento de bancadas partidárias.
Até a última segunda, o sistema reunia 19.847 candidaturas legislativas, com dados e fotos retirados da base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A plataforma afirma não usar inteligência artificial para deduzir posições políticas e garante que não recomenda em quem votar.
O que diz a denúncia de Melchionna
Para a deputada do PSOL, a exibição da ferramenta em horário nobre da Globo, dentro de um programa de grande audiência, configura suspeita de propaganda eleitoral irregular. O pedido à PGE, porém, não comprova por si só nenhuma irregularidade. Cabe agora aos órgãos competentes analisar os fatos e verificar se a exibição violou normas eleitorais.

O questionamento central gira em torno de um ponto delicado: uma ferramenta que, mesmo sem indicar diretamente um candidato, orienta visualmente o eleitor ao mostrar com quem ele tem maior afinidade política. Isso, em ano eleitoral e em rede aberta, levanta debate sobre os limites da neutralidade.
O outro lado: Globo, Huck e a plataforma
Procurados, a Globo e Luciano Huck ainda não se manifestaram oficialmente sobre a representação. A plataforma Tem Meu Voto, por sua vez, reforça que se trata de uma iniciativa cidadã e apartidária, voltada a ampliar a informação do eleitor — não a direcionar o voto.
O caso, no entanto, já está em movimento. E a decisão da PGE pode definir um precedente importante sobre o que pode ou não ir ao ar nos últimos dias de campanha, especialmente em programas de grande audiência.